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Fogão de Lenha, Maria Stella Libânio ChristoDe todos os livros de culinária que já li, tem o meu apreço especial este Fogão de Lenha, em capa dura, da Maria Stella Libânio Christo, cuja introdução é de Aureliano Chaves, que à época da 1ª edição (1971) era o governador de Minas. Sim, este é um livro de receitas mineiras, que traz lindas ilustrações relacionadas ao tema, todas tiradas do Álbum Debret, das quais destaco algumas: O jantar; Negras vendedoras de angu; Transporte de carne verde; Armazém de carne seca... Não sei se este é um livro de culinária mineira ou de receitas de poesias, crônicas e cartas sobre cozinha e suas gulodices, dada a excelência dos nomes que desfilam pelas suas páginas: Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Autran Dourado, Códice Costa Matoso, Cecília Meireles, Antônio Lara Resende, Manuel Bandeira, Cora Coralina... Vale a pena divulgar aqui algumas das pérolas dos ajudantes de cozinha recrutados por Maria Stella. Os textos destes incomparáveis auxiliares temperam de forma inigualável as primorosas receitas de doces, sopas e quitutes desta obra-prima da literatura. Renato de Barros diz: "Rosca, broinha e pão de queijo/são tão gostosos/quanto da moça o beijo" (1953). Manuel Bandeira avisa: "Mamãe não avisou que vinha./Se ela vier, mando matar/uma galinha". E Drummond complementa: "Havia jardins, havia/ manhãs naquele tempo!" Há muitas outras curiosidades literárias nesta obra, registros de receitas e documentos afins que remontam à época do Império, cartas e até quadras, como esta de Cecília Meireles: "Passas longe, entre nuvens rápidas, com tantas estrelas na mão... - Para que serve o fio trêmulo em que rola o meu coração?" Certamente hão de me perguntar: Cadê as receitas? Você não vai escrever uma sequer? e respondo: Receitas de bolos, doces, quitutes e outras iguarias encontramos em muitos livros, uns melhores, outros piores. Este Fogão de Lenha situa-se acima dos demais, sem dúvida, mas o meu forte não é o labor da cozinha. Após ler o livro duas vezes, resolvi, certo dia, preparar uns olhos de sogra e fui ao índice sistemático, página 131. Claro que voltei duas páginas para passar os olhos (os meus, não os da sogra) na introdução do Pedro Nava (Baú de Ossos, Rio, 1973), um verdadeiro tratado sobre o melado e a rapadura. Extasiado, esqueci a receita dos olhos de sogra e me dirigi a outro texto, depois outro, e outro e mais outro... Quando dei por mim, já era muito tarde para executar a receita que eu, totalmente desprovido de dotes culinários, certamente não conseguiria levar adiante. E toda vez que tenho este livro nas mãos ocorre o mesmo, perco-me nas suas páginas deliciosas, esqueço do mundo, me alimento de Drummond, Cora Coralina, Bandeira, Dantas Mota, Rubem Braga, Cecília Meireles, Pedro Nava... Sendo o Fogão de Lenha um livro de receitas de cozinha, o leitor pode não concordar comigo, mas considero estas como secundárias, elevando os demais textos ao primeiro plano. Ainda assim, reafirmo que esta obra, para o que se propõe (mesmo que se suprimissem os demais textos) seria superior a todas as outras do gênero e indico sua leitura a todos os que apreciam a boa literatura e a boa mesa, quem não se sobrevive sem uma nem outra. Finalizo com o preceito bíblico (Provérbios 14: 23) transcrito na página 156: Mais vale um prato de verdura com amizade, que um boi com inimizade.
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poesias, bandeira, fogão, debret, coracoralina, sopas, quitutes, aureliano, lenha, iguarias, crônicas, receitas
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O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós
Qual o crime cometido pelo jovem padre Amaro? O de ter se apaixonado pela bela Amélia? E se o crime tem uma agravante, qual a pena a ser-lhe aplicada por tê-la engravidado? Eis um livro que deve ser lido com muita atenção, pacientemente, para o leitor não perder detalhes de como o autor retrata a hipocrisia e a promiscuidade da sociedade portuguesa na segunda metade do século XIX, especialmente dos representantes da igreja católica. Para instigar a curiosidade dos futuros leitores, vale ressaltar algumas passagens do romance, como a cena da refeição dos padres à mesa da S. Joaneira, discutindo banalidades e a vida alheia, as qualidades e defeitos dos homens e das mulheres, a vida dos pobres ("azar o deles") e os "arranjos" para conseguir dinheiro com os políticos. Amélia, diante da impossibilidade de se casar com seu querido Amaro e para não "cair na boca do povo", é convencida a se preparar para contrair núpcias com o escrevente João Eduardo. João Eduardo que, num horrível sonho de Amaro, adquire as feições do Diabo, impedindo o padre de continuar com sua amada Amélia o caminho para o Céu. E Amaro também vai se enredando cada vez mais numa teia de mentiras para manter as aparências, chegando ao absurdo de desejar que o filho nasça morto. Há trechos maravilhosos como o seguinte: "Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro marido de Amélia era o senhor pároco; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a obediência íntima, a vontade; o outro teria quando muito o cadáver..." Ou ainda quando o severo Dr. Gouveia, descobrindo por fim o estado de Amélia, diz: "Eu bem tinha dito a tua mãe que te casasse!" e, resignado, complementa: "A natureza manda conceber, não manda casar. O casamento é uma fórmula administrativa..." Não consumado o casamento por desistência do escrevente, tenta-se deseperadamente conseguir outro noivo antes que Amélia dê à luz ao fruto proibido. Fosse eu enumerar todas as partes maravilhosas deste livro e o reescreveria por completo. Fica, assim, a indicação da leitura de um dos grandes romances de Eça de Queirós, um verdadeiro documento humano e social da sociedade portuguesa de então: O Crime do Padre Amaro.
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Pequena enciclopédia de personagens da literatura brasileira, Clóvis BulcãoConcentrar muitos livros num só livro, ressuscitando grandes personagens da nossa literatura. Eis a façanha realizada por Clóvis Bulcão nesta memorável "Pequena Enciclopédia de Personagens da Literatura Brasileira" (Ed. Elsevier/Campus). Heróis e heroínas, vilões e vilãs de épocas e lugares diferentes desfilam livremente pelas suas quase 300 páginas, amando, sofrendo, brigando, morrendo, aprontando mil peripécias, enfim... Livro recheado de maravilhosas personagens, como Alaíde, que morreu atropelada (Vestido de Noiva - Nelson Rodrigues); Capitu (Dom Casmurro - Machado de Assis); a peleja de Fabiano (Vidas Secas - Graciliano Ramos); Santiago (O Alquimista - Paulo Coelho); Ana Clara (As Meninas - Lygia Fagundes Telles); O Major Vidigal e sua justiça infalível (Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida); Ana e seus seis irmãos (Lavoura Arcaica - Raduan Nassar) e outros, outros, muitos outros... Puro deleite! Qual obra literária como esta é capaz de construir tão sólida ponte entre as personagens e suas histórias, elo através do qual o leitor, curioso, pode passar para conferi-las integralmente?
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